Lembranças de um depoimento

Posted on janeiro 15, 2008 por

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Autor: Gustavo Nogueira

Chegando ao local do crime, percebo que tudo alí foi milimetricamente calculado.

Todos os instrumentos necessários para um bom resultado estavam por lá.
Amarrei suas mãos e pés. Deitado na maca, ele não podia fazer nada, da mesma forma como ele fez com quem ele prejudicou”.
passei cola extra-forte em seus cílios, para que ele não pudesse ver nada, apenas sentir tudo o que eu faria com ele
Era isso que o filho falava, com uma tranqüilidade na voz, de pensar que tudo era muito banal.
Com seus motivos e razões, achara certo o que tinha feito, pois sempre fazia alusão aos maus tratos que sofrera.
Enquanto a cola fazia efeito, fazia pequenos cortes na ponta de seus dedos, para que o sangue saísse mais rápido, esvaziando seu corpo
Com um bisturí, abriu as pálpebras, deixando o globo ocular totalmente amostra.
Ele conseguia ver tudo o que se passava, dizia que estava sentindo muita dor, que não merecia aquilo, mas no fundo mesmo, ele merecia

Toda a equipe ficava boquiaberta a cada palavra que ele dizia. Falava do que tinha feito como quem corta carne para um churrasco, onde tudo era na verdade uma carnificina.

Ele era deplorável, deixou a própria mãe sem condições de comprar um remédio, prejudicou toda a família e ainda se achava no direito de destratar as pessoas. Não vejo porque uma pessoa dessa não deva sofrer o mesmo ou algo parecido” – continuou em seu desabafo.

Repeti em seu ouvido inúmeras vezes ‘você não presta’, queria que ele sentisse o que senti todas as vezes que ele tinha me dito isso

Ele prosseguiu com a descrição sumária de toda sua ação, com uma frieza indescritível, mas não a frieza de um assassino, mas sim a de alguém que fez o que achava ser certo.

Mas agora vou dizer que estou arrependido, afinal, ele disse que estava arrependido e todos o perdoaram, menos eu, então o único que não precisa me perdoar é ele, mesmo sendo meu pai, até porque agora ele não tem mais que perdoar nem a mim nem a ninguém.”

O perdão pedido fora concedido, afinal, se o que vale é o pedido de perdão, vamos perdoar a todos que se dizem arrependidos de seus erros.
Essas são as poucas lembranças que tenho do depoimento que ouvi.
Trágico tudo isso? Não sei. Tudo é uma questão de ponto de vista.

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