PALMA$

Posted on dezembro 18, 2007 por

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Autor: Gustavo Nogueira

Recentemente consegui realizar um grande sonho, comprei meu primeiro carro de luxo. Pois é, dourado, bancos de couro, ar-condicionado.
Minha esposa e meus filhos adoraram.
Como era inicio de semana, ainda não tinha passeado com minha família.
Indo para o trabalho, percebo um rapaz, apenas de bermudas jeans vindo em minha direção.
Eu achava que ele estava apenas tentando atravessar a rua, quando me surpreendo e ele bate no vidro do carro, mandando abrir a porta.
Com minha negativa ele consegue entrar pela porta traseira, que acidentalmente meu filho deixou destrancada.
Com uma faca no pescoço, entro em pânico e abandono o veiculo e vejo o carro sair em disparada por cima da calçada, tentando evitar o transito lento que se formava naquela hora.
O carro para violentamente, imagino que ele tenha atropelado alguém e vou até o local.
Vejo o rapaz tentar entrar em outro veiculo, porém sem sucesso, e em um ato de desespero ele empurra um motoqueiro que passa pelo local, e tenta levar sua moto.
Nesse momento, minha mente tentava entender o que ele queria com tanta correria. Do que será que ele estava fugindo?
Policia? Assalto? Algum marido enfurecido em descobrir que sua esposa tinha um amante?

Após ser imobilizado por populares, ele é levado pela policia.
Eu, retorno para casa após ter o desprazer de assinar a guia do guincho para levar meu carro até a concessionária para ser reparado.
Minha historia fantástica é o assunto principal durante meu jantar com a família.
Fomos todos dormir tarde, conversando sobre o assunto, e tentando entender o porque daquele jovem rapaz, aparentemente de boa índole e saudável, estaria tão desesperado, tentando fugir.
O sono vence minha ânsia de tentar entender o que me aconteceu.

Pela manhã, durante o café, o noticiário matinal me chama a atenção com uma. Um atleta é enterrado sob uma salva de palmas e discursos inflamados de emoção e saudade por seus parentes e amigos. Porém, o que me chocou foi o restante da matéria jornalística. O referido atleta, tinha falecido após uma tentativa frustrada de se conseguir um laudo médico para tira-lo da cadeia após alguns atos “anti-sociais”.
Perco a fome ao ver na tela da minha TV o meu carro batido e a faca que a menos de 24hrs estava prestes a ser cravada em meu pescoço.
O som daquelas palmas ainda ecoam em minha mente, quase que como uma trilha sonora para os momentos de pânico que vivi naquele dia quase trágico.
Não sei se minha família teria dinheiro para comprar tantos aplausos caso eu tivesse sido esfaqueado, muito menos, para mudar o foco da atenção popular onde um assaltante agressivo passou a provável vítima de erro médico. Erro esse de um ato que visava burlar a lei, e por em liberdade um criminoso.
Estranho, ver na TV um criminoso ser tido como vítima.
E eu, sou o que? Acho que apenas o dono do carro que o “atleta” roubou.

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