Hora do almoço

Posted on dezembro 6, 2007 por

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Autor: Gustavo Nogueira

 

Chegou a hora do almoço, e eu estou com fome…

Mas será que estou com fome mesmo?

Não tomei café da manhã antes de sair de casa, e já são 13:01

Algumas horas de trabalho e a fome apertou…

Mas e quem não come faz dias, semanas?

Lembrei de um senhor, magrinho, que fazia alguns serviços na casa de praia de um tio meu.

Lembro-me bem que sempre que íamos para lá, no verão, minha tia colocava o almoço para ele, o que mais chamava a atenção é pq era servido em uma travessa, praticamente uma bacia.

Era muita comida, e um dia eu perguntei porque ele comia tanto e era tão magro, não lembro quem me respondeu, mas a resposta me fez pensar muito naquele momento.

Ele só comia quando íamos para a casa de praia, não tinha família nem ninguém na vida. Apenas cuidava da limpeza de algumas casas de praia dalí.

Ele sim sentia fome, pois cuidava de várias casas da região, mas todas passavam praticamente o ano inteiro fechadas.

Meu tio ia com alguma freqüência para a dele, quase todo final de semana.

Na região não tinha nenhum mercado, quase uma região isolada. Telefone, só no posto da empresa de telefonia, pois nas casas não tinha como se levar os fios pelos postes.

Tento imaginar como aquele homem sobrevivia.

Não consigo imaginar a fome que ele sentia, o que ele fazia quando sentia fome.

Será que eu sinto fome? Agora não sei mais…

Mas a vontade de comer ainda existe, ainda ronda meu estomago, que a cada 20 segundos (aproximadamente) reclama e me diz algo com um som de “wroommm”.

Fico feliz em saber que tenho todos os dias algo para comer, mas também fico triste ao lembrar que existem milhões de pessoas como o homem magrinho lá da praia, mas volto a ficar feliz em lembrar que ele trabalhava, mesmo sabendo quando os donos das casas chegariam ou não, ele preferia trabalhar, cuidar das casas ao invés de roubar, de arrombar uma porta e pegar o que não era dele.

A dignidade da fome, uma fome que era “matada” com o fruto do trabalho de um homem sem estudo, sem família, sem nada, tinha apenas um dos mais importantes atributos que um ser humano pode ter, a DIGNIDADE.

 

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